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TOUPEIRA-DE-ÁGUA ESTÁ A DESAPARECER DO NORDESTE DE PORTUGAL
Nos últimos 20 anos, a toupeira-de-água desapareceu de 63,5% dos locais onde existia, nas bacias do Tua e do Sabor.
 

Num artigo publicado hoje pela revista científica Animal Conservation, investigadores do CIBIOInBIO demonstraram que este mamífero está em acentuado declínio. Realçam também a importância da conservação de riachos e ribeiros, em especial nas áreas de nascentes em zonas montanhosas, que parecem funcionar como refúgios naturais para a espécie.

 

Os ecossistemas de água doce estão entre os mais ameaçados do mundo, sendo afectados por múltiplos factores de pressão antropogénicos, como a desflorestação de encostas e margens dos rios, a poluição ou a construção de barragens. É neste contexto que vive a toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus), um mamífero insectívoro com estatuto de conservação vulnerável (segundo a Lista Vermelha do IUCN) que pode ser encontrado, para além do norte de Portugal, em regiões do centro e norte Espanha e nos Pirenéus (Andorra e França).

 

A equipa do CIBIO-InBIO, constituída por Lorenzo Quaglietta, Joana Paupério, Filipa Martins, Paulo Célio Alves e Pedro Beja, usou dados de distribuição geográfica e modelos estatísticos para mapear as probabilidades de ocorrência da toupeira-de-água e relaciona-las com variáveis ambientais. Durante os anos de 2014 e 2015 os investigadores recolheram dados sobre a ocorrência da troupeira-de-água em 74 locais das bacias hidrográficas do Tua e do Sabor, e os comparam a registos obtidos num estudo anterior decorrido entre 1993 e 1996.

 

Em 1993-96, a toupeira-de-água tinha sido encontrada em 85,1% dos locais analisados, enquanto que no período 2014-15 foi registada a sua existência em apenas 31,1% dos locais, observando-se uma taxa de extinção entre os períodos de 63,5%.

 

Perante uma diminuição tão acentuada, o estudo sugere uma reavaliação do estatuto de conservação da espécie, definido como “vulnerável” em 2008. “Isso seria importante para atrair os recursos necessários para promover a conservação da toupeira-de-água, tentando deter a tendência actual de declínio”, argumenta o investigador do CIBIO-InBIO Lorenzo Quaglietta.

 

Do Douro para a arca da National Geographic

 

O estudo conclui que o desaparecimento da espécie está a acontecer nos principais rios e nos maiores afluentes das bacias do Tua e do Sabor. Estes importantes resultados são parte de um trabalho mais abrangente da equipa de investigadores do CIBIO-InBIO para conhecer melhor a ecologia da toupeira-de-água.

 

Durante uma expedição realizada em Abril na região do Douro, em busca de mais registos de ocorrência da espécie, a equipa de investigação foi acompanhada pelo fotógrafo da National Geographic Joel Sartore, autor do projecto Photo Ark, que conseguiu recolher a imagem deste mamífero. A toupeira-de-água tornou-se, desta forma, na 8 000ª espécie a integrar a maior arca fotográfica do mundo, a qual se encontra até ao dia 29 de Julho em exposição na Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto.

 

Na nova arca de Noé fica preservada para a posteridade a imagem da toupeira-de-água. Contudo, se as futuras gerações quiserem ter a chance de conhecer este mamífero na natureza será preciso proteger os locais onde ele ainda deverá ocorrer.

 

Onde estará então a toupeira-de-água a salvo?

 

O artigo agora publicado na Animal Conservation aponta que as zonas denominadas cabeceiras (áreas de nascentes em zonas montanhosas), onde as águas têm baixa temperatura e fluxo rápido, reúnem condições que tornam a ocorrência da espécie mais provável. De acordo com Lorenzo Quaglietta “estas zonas podem actuar como refúgios naturais, perante alguns dos factores que levam ao declínio da toupeira-de-água, como a acção humana, as alterações climáticas ou as espécies invasoras. Para além disso, estes cursos de água têm, geralmente, maior estabilidade na disponibilidade de macroinvertebrados, dos quais a toupeira-de-água se alimenta”.

 

A preservação destes refúgios beneficia não somente a toupeira-de-água como também toda a biodiversidade dos ecossistemas ribeirinhos. As espécies que habitam estes ecossistemas estão a extinguir-se a taxas sem precedentes e os resultados deste estudo vêm reforçar as crescentes evidências sobre a importância das cabeceiras para a biodiversidade aquática.

 

Os autores defendem, no entanto, que a preservação das condições naturais não só destes refúgios mas de todo o ecossistema ribeirinho é fundamental para a conservação da toupeira-de-água. “Devem ser concentrados esforços na manutenção da elevada qualidade da água, da densidade de vegetação nas margens dos ribeiros, e do livre fluxo dos cursos de água”, realça Lorenzo Quaglietta.

 


Artigo original:
Quaglietta L, Paupério J, Martins FMS, Alves PC, Beja P (2018) Recent range contractions in the globally threatened Pyrenean desman highlight the importance of stream headwater refugia. Animal Conservation.DOI: 10.1111/acv.12422

 

Imagens:
Figura 1. A toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) capturada por investigadores CIBIO-InBIO na região do Douro | Créditos de imagem: Joel Sartore
Figura 2. Prospecção de indícios de presença de toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) numa das ribeiras do rio Sabor (Trás-os-Montes) | Créditos de imagem: Lorenzo Quaglietta

Posted in 2018-06-20