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O EFEITO DA “MULHER DE VERMELHO”: MACHOS GRÁVIDOS DESCURAM GESTAÇÃO QUANDO APRESENTADOS A UMA FÊMEA MAIS ATRAENTE
Num artigo publicado hoje pela prestigiada revista Proceedings of the Royal Society B, uma equipa internacional, liderada pelos investigadores do CIBIO-InBIO Nuno Monteiro e Mário Cunha, descobriu, num parente próximo do cavalo-marinho no qual são os machos a engravidar, uma estratégia reprodutiva surpreendente. Durante a gravidez, os machos deixam de investir na gestação quando encontram uma fêmea mais atraente.
 

Conhecia-se, apenas num reduzido número de espécies de mamíferos, a capacidade das fêmeas terminarem gravidezes quando o macho dominante era substituído. No entanto, nada similar havia sido observado noutros grupos de animais. Numa alusão ao filme de Gene Wilder, “A mulher de vermelho”, em que um homem pacato fica repentinamente obcecado por uma bela modelo e acaba por esquecer a sua mulher e filhas, os investigadores do CIBIO-InBIO baptizaram um comportamento semelhante, agora observado em peixes, como efeito da “Mulher de Vermelho”.


Os pequenos peixes da espécie Syngnathus abaster, vulgarmente conhecidos como marinhas, pertencem à mesma família dos cavalos-marinhos e possuem uma forma de reprodução única no mundo animal: a gravidez masculina. Durante o acasalamento, a fêmea transfere os ovos para a bolsa incubadora do macho, similar a uma placenta, onde os embriões se desenvolvem, protegidos e alimentados pelo pai.


É esperado que o investimento dos pais na reprodução influencie o sucesso reprodutivo. Quanto maior for o investimento, maior será a quantidade e viabilidade da descendência. Segundo explica Nuno Monteiro, “o processo de escolha de parceiros é absolutamente crucial e ninguém quer cometer erros porque o preço a pagar pode ser a ausência de descendência. Todos pretendem ter como parceiros os indivíduos de melhor qualidade e, assim, as escolhas caem recorrentemente sobre os indivíduos maiores e mais coloridos”.


No entanto, “às vezes, há enganos ou apresentam-se oportunidades inesperadas e alguns animais têm a flexibilidade de reagir a novas condições. Nas últimas décadas temos descoberto mecanismos extraordinários de selecção que operam, escondidos, no corpo das mães ou, no caso dos peixes que estudamos, na bolsa incubadora dos pais”, adianta o investigador.


No artigo agora publicado, os investigadores estudaram mais de 400 peixes, na natureza e em laboratório, para tentar perceber se o desenvolvimento dos embriões e as taxas de abortos podem ser afectados quando um macho grávido encontra uma nova fêmea mais atraente.

 

Como uma “paixão inesperada” pode afectar uma gravidez


A monitorização da sobrevivência e crescimento da prole em desenvolvimento revelou que, após a exposição a fêmeas mais atraentes, os machos de marinhas aumentam o número de abortos e produzem crias mais pequenas, em grupos mais heterogéneos.


“Embora não tenhamos observado um bloqueio completo da gravidez, os resultados indicam que os machos são capazes de reduzir o investimento na gestação actual quando confrontados com a perspectiva de uma melhor reprodução futura”, refere Nuno Monteiro. “O gestante reduz ou ces-sa a transferência de recursos para os embriões, capta e reserva nutrientes dos embriões aborta-dos e, assim, economiza reservas de energia para a gravidez que acredita ser possível com a «Mulher de Vermelho»”, acrescenta.


Este estudo demonstra, pela primeira vez fora dos mamíferos, a ocorrência de um efeito seme-lhante ao chamado “Efeito de Bruce” – bloqueio da gestação quando fêmeas de algumas espécies de mamíferos são expostas a um novo macho. Desta forma, comprova que a “a gestação masculi-na nestes peixes tem semelhanças notáveis com a dos mamíferos placentários”, salienta Mário Cunha.

 

 

Artigo original:

Cunha M, Berglund A, Mendes S, Monteiro N (2018) The ‘Woman in Red’ effect: pipefish males curb pregnancies at the sight of an attractive female. Proceedings of the Royal Socyety B. DOI: 10.1098/rspb.2018.1335


Imagens:
Figura 1. Uma fêmea da marinha Syngnathus abaster | Créditos de imagem: Marisa Sárria

Figura 2. Machos (em baixo) e fêmeas (em cima, com o padrão listado visível, que exibem quando cortejam os machos) da marinha Syngnathus abaster | Créditos de imagem: Marisa Sárria

Posted in 2018-08-22