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ESTUDO DEMONSTRA O IMPACTO DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS NA DIVERSIDADE AMAZÓNICA
Num artigo publicado hoje pela prestigiada revista Science Advances, uma equipa internacional que inclui os investigadores do CIBIO-InBIO, Sofia Marques Silva, Tiago Sousa-Neves, Marcelo Vallinotto e Fernando Sequeira, demonstra o papel crucial do clima para a diversidade de aves da Amazónia e aponta a região sudeste deste bioma como a mais recente e mais vulnerável às alterações climáticas.
 

A imensa diversidade biológica encontrada hoje na Amazónia estará intimamente relacionada às oscilações do clima no passado que ocorreram de maneira distinta em cada região. Esta é a conclusão de um estudo que reuniu, pela primeira vez, dados de dezenas de espécies de aves Amazónicas, com mais de 6 mil registos e dados genéticos recolhidos de aproximadamente 1000 indivíduos.

O artigo tem como autores investigadores do CIBIO-InBIO e de mais 9 instituições internacionais, entre as quais o Luomus Finnish Museum of Natural History e a University of Helsinki (Finlândia). Os resultados deste estudo demonstram que as linhagens mais antigas de aves surgiram nas regiões mais húmidas do oeste e norte da Amazónia, e que estas teriam originado as linhagens mais jovens nas regiões a sul e sudeste, relativamente mais secas.

 

A imensa biodiversidade Amazónica

Há mais de um século os cientistas procuram compreender de que maneira originou-se a diversidade na Amazónia. Mesmo após o advento das técnicas que permitem a análise ao ADN e a melhor compreensão da evolução das espécies, os estudos conduzidos até então não trazem evidências que suportem um consenso entre as hipóteses já formuladas.

 

Conforme diz Sofia Silva, investigadora do CIBIO-InBIO e primeira autora do artigo, “quisemos neste estudo elaborar um modelo mais complexo que pudesse explicar as divergências observadas em estudos anteriores. Para isso estudamos diferentes espécies de aves, endémicas de regiões distintas da Amazónia, e analisamos de que maneira as alterações na paisagem e no clima ocorridos no passado estariam relacionadas com o surgimento destas diferentes espécies”.

 

O famoso naturalista Alfred Russel Wallace foi um dos primeiros a elaborar em meados do século XIX uma hipótese para explicar a criação da imensa biodiversidade Amazónica. Segundo Wallace os grandes rios da bacia Amazónica teriam promovido o isolamento de populações que, ao longo das gerações, se teriam diferenciado dando origem a novas espécies. Já o ornitólogo J. Haffer em 1969, leva em conta que o isolamento e posterior diferenciação ocorreram em diferentes regiões da Amazónia denominadas refúgios. Os refúgios são regiões isoladas que permaneceram húmidas e mantiveram sua cobertura florestal durante episódios recorrentes de clima seco, ocorridos entre 2,5 milhões e 11 mil anos atrás, numa época conhecida como Plistoceno.

 

Cinquenta anos após a publicação do estudo de Haffer, os resultados do artigo agora publicado indicam que “apesar dos rios terem contribuído para a diferenciação de algumas espécies, o fator crucial que explica a grande biodiversidade são as oscilações da humidade durante o Plistoceno, as quais não foram homogéneas ao longo da Amazónia e nem ocorreram nos mesmos intervalos de tempo”, mais explica Sofia Silva.

 

 

O impacto futuro das alterações climáticas

O artigo indica ter havido no passado um gradiente bastante acentuado na variação climática desde o noroeste, historicamente mais húmido, até o sudeste da Amazónia, relativamente mais seco. Estas evidências explicariam a existência de uma maior e mais antiga diversidade de aves no oeste e norte da Amazónia. O sul e sudeste abrigam uma menor e mais recente diversidade de aves, que teriam surgido somente quando o clima esteve propício para o estabelecimento da floresta húmida nesta área. A cobertura florestal aí deverá ter sido instável e altamente influenciada pela redução de precipitação na região.

 

O estudo traz um importante contributo ao resolver a aparente contradição entre as hipóteses sobre a biodiversidade na Amazónia e também traz à discussão o papel da maior floresta tropical do planeta no âmbito das alterações climáticas. Os autores do artigo alertam que a região sudeste da Amazónia, historicamente a mais vulnerável a mudanças climáticas, é hoje a mais ameaçada pela desflorestação. Se considerarmos os impactos das alterações climáticas actuais é provável que as mudanças históricas na distribuição da cobertura florestal nesta região ocorram novamente, e com elas a perda da biodiversidade e dos serviços ecossistémicos dos quais todos nós dependemos.

 

 

Artigo original: Silva SM, Peterson AT, Carneiro L, Burlamaqui TCT, Ribas CC, Sousa-Neves T, Miranda LS, Fernandes AM, d'Horta FM, Araújo-Silva LE, Batista R, Bandeira CHMM, Dantas SM, Ferreira M, Martins DM, Oliveira J, Rocha TC, Sardelli CH, Thom G, Rêgo PS, Santos MP, Sequeira F, Vallinoto M, Aleixo A (2019) A dynamic continental moisture gradient drove Amazonian bird diversification. Science Advances. DOI: 10.1126/sciadv.aat5752.

 

 

Imagens:
Imagem 1. Um exemplar macho do passeriforme Willisornis vidua, ou rendadinho-do-Xingu, uma das espécies de aves analisada no estudo agora publicado | Créditos de imagem: P. V. Cerqueira
Imagem 2. Galbula albirostris, ou Ariramba-de-bico-amarelo, mais um representante das aves analisadas no estudo agora publicado | Créditos de imagem: A. Gambarini
Imagem 3. O rio Roosevelt, situado na região oeste da Amazónia | Créditos de imagem: Alexandre Aleixo

Posted in 2019-07-04