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NOVAS TÉCNICAS DE MONITORIZAÇÃO AMBIENTAL PARA PORTUGAL EM DEBATE NO CIBIO-InBIO
Nos dias 18 e 19 de Dezembro, o CIBIO-InBIO recebeu um encontro internacional de especialistas no qual se debateu, pela primeira vez em Portugal, a implementação de técnicas de eDNA para monitorização ambiental da água.
 

O evento organizado pelo CIBIO-InBIO, no âmbito da Cátedra ERA em Metagenómica Ambiental (EnvMetaGen), em conjunto com a Cátedra EDP Biodiversidade e a rede europeia DNAqua-Net, contou com a presença de cerca de 150 participantes, entre investigadores nacionais e internacionais, empresas e entidades governamentais. No centro do debate estiveram as oportunidades e os desafios da utilização de métodos moleculares – que fazem uso do ADN recolhido no ambiente, o Environmental DNA (eDNA) – em programas nacionais de monitorização ambiental de ecossistemas aquáticos e biodiversidade.


Segundo explica o vice-director do CIBIO-InBIO e detentor da Cátedra EDP Biodiversidade, Pedro Beja, este encontro serviu, em primeiro lugar, para “dar a conhecer às entidades governamentais e às empresas como podem estas tecnologias ser utilizadas para resolver os desafios de monitorização ambiental”. O responsável da DNAqua-Net, Florian Leese, acrescenta que o evento ajudou a “diminuir a distância entre quem investiga e quem utiliza a biomonitorização”, colocando os diferentes agentes a debater directamente vantagens e desafios das novas abordagens propostas.


Entre as vantagens e os desafios do ADN ambiental


A avaliação da biodiversidade e da qualidade ecológica são fundamentais na monitorização dos ecossistemas aquáticos, legalmente estabelecida com a Directiva-Quadro da Água da União Europeia (WFD, 200/60/EC). Neste campo, as técnicas de sequenciação de ADN de última geração têm vindo a revelar grandes potencialidades de aplicação, havendo a expectativa de que permitam monitorizações com menores custos, resultados mais confiáveis e uma mais rápida compreensão dos impactes humanos sobre a biodiversidade e os ecossistemas. No entanto, a adopção destas novas tecnologias nos programas oficiais de monitorização tem sido lenta.


Ao longo dos dois dias dedicados a este tema, foram identificadas as etapas necessárias para melhorar a aplicação destes métodos, superando desafios técnicos, políticos e regulatórios. De acordo com Pedro Beja, entre as principais conclusões destaca-se que, “a curto prazo, há que desenvolver projectos-piloto em que se apliquem, por um lado, as técnicas convencionais usadas actualmente e, por outro lado, as técnicas baseadas em análises moleculares, para comparar e perceber se as novas técnicas são vantajosas em termos de custos e eficiência, e a forma como podem substituir ou complementar as existentes”.


Nuno Fonseca, o detentor da Cátedra ERA, realça que um outro passo importante neste contexto será dado pelo projecto EnvMetaGen: “criar uma base de dados de referência a nível nacional”. “Para se tirar o melhor partido de uma potencial maior sensibilidade dos métodos baseados em ADN ambiental na detecção de espécies, é importante conhecer melhor as espécies existentes em Portugal, objectivo para o qual a base de dados a desenvolver pelo EnvMetaGen contribuirá”, explica.


Dar a conhecer os bons exemplos


Um conjunto de convidados internacionais, que partilharam estudos de caso e também exemplos de boas práticas na implementação destes novos métodos de monitorização em diferentes países da Europa, protagonizaram um dos momentos altos do certame.
Bernd Haenfling, investigador na Universidade de Hull (Reino Unido), foi um dos palestrantes. O especialista partilhou que esta iniciativa do CIBIO-InBIO está em linha com o que tem acontecido no Reino Unido. “Eventos que juntam a Agência Nacional do Ambiente, a academia e outros actores para um trabalho conjunto têm sido muito úteis e produtivos na criação de projectos e na aproximação da investigação em desenvolvimento às expectativas das diferentes partes interessadas”, referiu.


Já Kristian Meissner, do Instituto Finlandês do Ambiente, apresentou o exemplo de um projecto que compara métodos tradicionais e moleculares, actualmente em curso nos países escandinavos. Meissner salientou a importância da cooperação internacional neste tipo de trabalhos, que são “de extrema importância para promover a transição metodológica”.


Exemplos portugueses da investigação com recurso às técnicas moleculares foram também apresentados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, pela Universidade do Minho e pelo CIBIO-InBIO.


O evento teve ainda espaço para a discussão sobre o cenário actual na monitorização dos ecossistemas aquáticos em Portugal. Em representação da Agência Portuguesa do Ambiente, Susana Nunes e Verónica Pinto contribuíram para o debate, abordando o contexto em que as novas técnicas de análise molecular podem ser integradas no processo de avaliação da qualidade ecológica das massas de água. “O principal desafio prende-se com o cumprimento do disposto na Directiva-Quadro da Água (DQA) e na Lei da Água. Não obstante, estes novos métodos podem ser utilizados de forma complementar à monitorização e avaliação efectuadas no âmbito da DQA e Planos de Gestão de Região Hidrográfica”, referiu Susana Nunes.


Próximo passo: criar parcerias e projectos


No final do evento o balanço foi claramente positivo. “A grande maioria dos participantes tinha uma ideia muito vaga do que seriam as técnicas de monitorização com recurso ADN ambiental. Agora ficaram a saber o que se faz em Portugal e na Europa, nesta área”, realçou o vice-director do CIBIO-InBIO, Pedro Beja. “O workshop despertou o interesse para o assunto e o próximo passo será criar projectos que demonstrem como estas técnicas de facto resolvem os problemas que as diferentes entidades precisam de resolver nesta temática. Neste sentido, o CIBIO-InBIO vai agora procurar estabelecer parcerias nacionais e internacionais”, avança.


Da parte do tecido empresarial, parece haver abertura para isso mesmo. No rescaldo do evento Ana Maria Ilhéu, responsável pelo Departamento de Ambiente e Ordenamento do Território da EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva), assumia que “estas tecnologias podem ser úteis para os programas de monitorização em curso” e, por isso, é tempo de “pensar em projectos futuros”.


Em representação da EDP Labelec, João Pádua salientou que há interesse em explorar estas novas metodologias baseadas no ADN ambiental. Com a colaboração do CIBIO-InBIO como parceiro científico no processo de aplicação destas técnicas, a EDP espera alcançar “uma maior frequência e uma maior cobertura espacial de monitorização”, nos seus trabalhos futuros. Esta parceria enquadra-se no âmbito da Cátedra EDP em Biodiversidade, concedida à Universidade do Porto e coordenada pelo CIBIO-InBIO.


Um dos objectivos da Cátedra, co-financiada pela EDP e pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), é avaliar o custo-eficiência dos métodos moleculares na monitorização de albufeiras de empreendimentos hidroeléctricos. Neste contexto, o CIBIO-InBIO vai desenvolver um conjunto de trabalhos de investigação científica dedicados à gestão de impactos ambientais e à conservação da biodiversidade.

 

 

Mais informações sobre o evento: “Mainstreaming molecular approaches in national environmental monitoring programs of aquatic ecosystems and biodiversity: opportunities and challenges in Portugal


Imagens:
Imagem 1. Auditório do CIBIO-InBIO durante o evento sobre a implementação de técnicas de eDNA para monitorização ambiental da água em Portugal | Créditos de imagem: Florian Leese.

Posted in 2018-12-21